Sou feito de silêncio, de observação atenta, de mãos que escrevem o que os olhos não conseguem esquecer. Caminho por entre dias comuns, mas dentro de mim cada instante é um universo a ser tocado. Não escrevo por hábito, escrevo porque preciso respirar. O papel, muitas vezes, é o único lugar onde consigo ser inteiro.
Vejo o mundo como um oleiro vê o barro, cheio de possibilidades, de formas escondidas, de sentidos por revelar. Cada palavra que escolho é como um gesto do dedo que afina a borda do vaso, preciso, delicado, incerto. Escrever é um processo de paciência. É sujar-se de sentimento, girar o torno da alma e aceitar que o tempo tem a mesma importância do texto, o tempo molda quem escreve para fazer viver quem ler..
Não tenho pressa. O poema não nasce pronto, sei disso. Primeiro, ele dói, machuca. Depois ele fala, sorri. Então começa a tomar forma, entre rascunhos e esperas, silêncio e paciência. E mesmo quando parece acabado, eu o olho e sei, ele ainda não disse tudo, o que será que ainda tem a dizer. Porque escrever é ouvir o que o silêncio quer dizer. É viver um pouco mais naquele instante que já passou, mas não passou em mim.
Talvez seja eu um poeta por sentir. E sentir me transforma. A beleza está nas entrelinhas, na moça que toma café sem pressa, no som do vento atravessando a cortina, no rastro de um olhar deixado na vidraça. Eu me alimento disso, do que os outros não veem. E é por isso que escrevo, para que o mundo sinta comigo o que senti no momento.
Que cada palavra minha toque em ti como o barro quente das mãos do oleiro, com forma, com calor, com alma. Porque quem escreve com o coração, não entrega apenas um texto, entrega a si mesmo.
"Escrever é fácil se você já conhece as palavras. O difícil é montar estas palavras pra entregar algo autêntico"