Tardes que o Tempo Não Levou
Era domingo e o mundo parecia tão calmo,
o céu guardava um azul que não existe mais,
os risos vinham leves, soprados pelo vento,
e a rua inteira sabia nosso nome,
como se a infância fosse eterna.
O rádio tocava histórias que viravam sonhos,
e entre um bolero e outro, o tempo parava,
a casa cheirava a Jasmim pela manhã
e tudo parecia tão certo, tão nosso,
como se viver fosse simples assim.
Os amigos chamavam da calçada poeirenta,
corríamos sem medo, sem pressa, sem destino,
a tarde se estendia, como um abraço antigo,
e a vida, tão pequena, cabia num quintal,
feito promessa, que a gente acreditava.
Havia sorrisos que hoje só moram na lembrança,
e vozes que o tempo tratou de silenciar,
mas o coração ainda escuta cada uma delas,
num som doce que insiste em ficar,
como canção tocada, numa vitrola cansada.
E quando fecho os olhos, volto àquele domingo,
onde tudo era brilho inocência e vontade,
um retrato amarelado que não desbota jamais,
um pedaço de mim que continua vivo,
nas jovens tardes que o tempo não levou.
